Alicerçados em tradições clássicas, árabes e celtas, entre as sereias de tradição latina e as fadas aquáticas de tradição celta, os mitos medievais continuaram a povoar todos os mares de monstros e fizeram crer que a Terra terminava em intermináveis cascatas, águas borbulhantes e terras abrasadoras. Das iluminuras medievais, desenhadas à margem do texto manuscrito, as bestas ganham maior valor iconográfico nos livros impressos, que passam a estar cheios de aterradores animais marinhos. As baleias, nomeadamente, podiam enganar os navegantes, parecendo Ilhas Incertas ou flutuantes (São Brandão, Balandrán ou Borondón), um episódio que vem também narrado nas “Mil e uma noites” (a baleia de Sinbad) e que sobreviveu até às aventuras de “Pinóquio”. E do golfinho perdeu-se na Idade Média aquela ideia benévola que os marinheiros gregos e cretenses tinham criado, e passa ele a ser pintado de aspecto monstruoso, por pura ignorância. Os naturalistas dos séculos XV e XVI acolheram nos seus tratados todas estas patranhas antigas e mais algumas modernas: Pierre Bellon, Conrad Gesner, Ambroise Paré, Cavazzi ou Ulisses Aldovrandi deixaram-nos magníficos volumes ilustrados, com gravuras em madeira de belíssimo efeito plástico, e de que se exibem algumas nessa pequena mostra.

